
- Fiquei, preocupada, irmã! Liguei insistentemente para sua casa, cedíssimo, e ninguém atendeu. O que aconteceu?
- Rose, o Fafá agora estuda de manhã! Sete e vinte! Sete horas eu já saio com ele...
- Sete e vinte? Mas criatura, ele só tem seis anos!! Por que tão cedo??
-É o horário. Aula à tarde só até a alfabetização, depois, é só de manhã.
- Mas gente, tadinho do meu sobrinho... tá tendo que acordar que horas? Seis, seis e meia? Tá escuro ainda, irmã! Porque não começa mais tarde? Oito, oito e meia...
- Rose, sete e vinte sempre foi o horário. A gente também começava a estudar essa hora quando era criança, você não lembra?
- Eu não, minha memória é seletiva! Só guardo as coisas boas da vida. E além do mais, era completamente diferente, né... a vida toda era mais cedo. A gente jantava as sete, a novela das oito começava às oito mesmo, dez e meia, onze horas, já estava todo mundo indo dormir. Hoje, é tudo mais tarde, a gente janta as nove, dez...
-Rárárá! Só se for você... quem tem criança, nêga, janta às sete mesmo e ás dez já está caindo pelas tabelas.
- Pois é, e tem necessidade disso? Não podia todo mundo acordar um pouquinho mais tarde pra não estar tão acabado no fim do dia? Não me conformo, tadinho do bichinho... fico imaginando ele que nem um zumbizinho indo pra escola, praticamente de madrugada. Acho que isso beira o sadismo, viu.
- Ai, tá bem, Rose, mas nem adianta ficar falando porque não tem jeito. Só se eu tirar ele da escola. Aí eu vou presa, né irmã? Você não vai querer me ver na cadeia, vai?
- Não, claro que não.
- Então pronto. Vou falar pra ele que você mandou um beijo, tá bom. Agora tchau, Rose, outra hora a gente se fala. Tô cheia de coisas pra fazer aqui agora...
- Tá bom, tchau, irmã.
(Seis e meia da manhã, meus amores. Todo dia. O bichinho tem seis anos de idade. Não me conformo.)