sexta-feira, abril 15

A rainha insultada



Caio Blinder chamou a rainha Rania, da Jordânia, de "piranha". Mais de uma vez. Durante a transmissão de um programa de televisão. Até ontem, eu mal tinha ouvido falar nela, não tinha (e ainda não tenho) opinião formada sobre seu caráter, seu trabalho ou não-trabalho, sua trajetória, nada... hoje, sei que Rania é conhecida no mundo todo por transmitir ao ocidente uma imagem diferente da que costumamos ter das mulheres árabes e muçulmanas. A rainha parece que realiza um importante trabalho humanitário, e utiliza meios como o YouTube para argumentar a favor dos direitos das mulheres e para desfazer muitos estereótipos relacionados às mulheres do oriente médio.

O jornalista pode até ter razão em seus argumentos. Pode-se concordar que beira o cinismo esse trabalho humanitário quando se faz parte de uma família de ditadores, em uma região antidemocrática e que, sim, hostiliza mulheres e comete todo tipo de barbaridades e atrocidades enquanto vive cercada de opulência bancada pelos petrodólares e pela exploração das pessoas. Como disse antes, não tenho uma opinião formada especificamente sobre a rainha, não a conheço suficientemente. Mas tenho opinião formada sobre outras duas coisas: Primeiro - o destino quis que Rânia nascesse na família em que nasceu, da mesma maneira que algumas pessoas nascem em campos de refugiados. Isso não faz dela uma pessoa necessariamente ruim. O que para nós pode parecer hipocrisia, pode ser, na verdade, o máximo que ela pode fazer. Vamos exigir o que dela? Que seja uma mártir? Que abandone a coroa? O simples fato de ter um rosto, de ser conhecida no ocidente, de levantar uma bandeira relacionada a um assunto complicado em seu país, já a torna digna de algum respeito. E segundo - Nunca. Nunca. Nunca. Mas nunca. Nunca mesmo. Nunca se destrata e se xinga assim uma mulher em público. Piranha e vagabunda são os palavrões oficiais para as mulheres em qualquer situação. Para diminuí-las. Para reafirmar o machismo, o chauvinismo atávico, o preconceito disfarçado. É nojento. É abaixo de crítica. É o fim. Nunca. Mas nunca mesmo!

2 comentários:

Du disse...

na Jordânia, há uma monarquia constitucional e, ainda que o poder do rei não estivesse limitado aos preceitos constitucionais, haveríamos de indagar a respeito da legitimidade do poder a ele conferido. dizer que ela faz parte de uma família de ditadores me parece incorreto, Rose. de resto, a argumentação do jornalista é tão frágil e mesquinha como a maneira que escolheu para expressá-la.

Rose Foncée disse...

Du, você tem toda razão. Quis focar no fato de mais uma vez uma mulher ter sido insultada com o termo "piranha", usado completamente fora do contexto, e na visibilidade que a rainha possui, incomum entre as mulheres no mundo árabe, e acabei cometendo a imprecisão. Obrigada pela correção e apareça sempre!! Beijos.