domingo, janeiro 11

Sobre a febre dos Je suis.

Não defendo religião. Não defendo terrorismo. Não defendo "não há limites para o humor".
Entre os "Je suis Charlie", "Je ne suis pas Charlie", "Je suis Ahmed" e sei lá mais quantos outros "ser ou não ser" que pipocam nas ruas e nas redes sociais nos últimos dias, parece-me que o Je suis Ahmed é a única bandeira pacifista e a única que importa. Ahmed, o policial muçulmano morto por terroristas vivia, literalmente, num fogo cruzado. De um lado os intolerantes à sua crença religiosa. Do outro alguns desequilibrados que encontraram na sua crença religiosa uma razão para esbanjar sua loucura.
A morte de Ahmed, mais que qualquer outra morte no evento, representa toda a tragédia que foi inflamada pelos Charlies com sua arma intolerância-transmitida-por-um-meio-de-comunicação-em-massa e executada por dementes com potentes armas de fogo. As reverberações dessa chacina irão chegar em forma de mais intolerância a todos os muçulmanos, O ódio que culminou nessa tragédia, continua se propagando e atingindo novos Ahmeds a cada novo #JesuisCharlie.
Ao invés da discussão do ser ou não ser Charlie, há de se discutir a liberdade de crer ou não crer, sem interferir na crença ou não crença do outro. A sua não crença não lhe dá o direito de violentar a crença do outro, assim como aquele que crê e toda a sua crença não podem interferir na vida de quem não crê. Esse é o canal para a convivência pacífica. Ah! E nunca se esqueça: gente desequilibrada não tem raça, sexo, religião, classe social, convicção política... Gente desequilibrada é o cara à esquerda na foto, com uma arma na mão, prestes a matar mais um ser humano, sem nenhum motivo.

Um comentário:

Mariana Borges disse...

Lili, a literatura satírica é uma tradição francesa de centenas de anos. O Charlie Hebdomadaire era só mais uma entre as publicações que "zoam" com todo mundo. Os católicos "ortodoxos" não devem ter gostado nada nada das ilustrações de Maria de perna aberta "parindo" Jesus, Jesus gay... Enfim, o foco da publicação não era expressar intolerância religiosa, mas apontar o que há de risível em nosso cotidiano e em nossas crenças. Saber rir de si mesmo é uma arte. Entendo o #JesuisCharlie como uma defesa da liberdade de expressão.