sexta-feira, maio 27

A Verdade Terrível





Um menino desaparece. Dias depois, um corpo é encontrado, desfigurado. Duas mulheres – esposa e filha do prefeito de Guaratuba, no Paraná – são acusadas do crime. O menino teria sido morto e seu corpo retalhado em um ritual de magia negra. Presas, elas acabam confessando o assassinato à polícia, mas depois, alegam inocência, revelando que haviam confessado sob tortura. Seis anos depois, o maior julgamento do país (34 dias) termina declarando as rés inocentes, sob alegação de que não havia como identificar o corpo encontrado. A fita contendo a confissão havia desaparecido, e reaparece no julgamento, contendo trechos que não haviam sido percebidos antes - as vozes dos policiais, mandando-as confessar. Mais treze anos se passam, e agora o novo julgamento. A promotoria tem como provar que o corpo é mesmo do menino desaparecido e tenta mais uma vez condenar Beatriz Abbage, a filha (a mãe, Celina, já tem mais de 70 anos, portanto não vai mais a julgamento).

Se as rés foram mesmo torturadas, o relato feito por elas, sobre o que passaram, é de uma crueldade estarrecedora. Inclui estupro, choques elétricos e violência física. Qualquer que seja a verdade, é gravíssima. Se não foram elas, o que terá acontecido ao menino Evandro? Por que a polícia estaria preocupada em culpar alguém e por que elas? Se foram elas e se o crime aconteceu como descreve a acusação – com retirada de membros e órgãos internos para oferenda em ritual de magia negra, como podem essas mulheres continuar vivendo? Como não enlouqueceram? Como puderam fazer?

O que quer que tenha acontecido resulta que uma terrível, irreparável injustiça e atos de crueldade extrema foram praticados contra alguém. Pessoas foram coniventes. Há gente que sabe, há gente que pensa que sabe, mas a maioria não sabe. A promotoria tem certeza que foram elas. A defesa tem certeza que não foram.

Qualquer que seja o resultado do novo julgamento, a parte vencedora vai dizer que a justiça foi feita e a perdedora vai dizer que uma injustiça foi perpetrada. Mas a dúvida, a dúvida terrível vai se perpetuar. Nesse nosso mundo de uma busca quase insana de segurança, certezas e culpados, essa história é um lembrete agudo e doloroso de que as verdades não são tão simples, de que as coisas raramente são como parecem, de que as pessoas mentem, sustentam mentiras, e criam teias de dúvidas sobre seus fantasmas e sobre seus esqueletos no armário. Onde estará o menino, hoje um homem de 25 anos, se ele não foi mesmo assassinado há 19 anos atrás? Terá ele conhecimento de quem é, quem foi, que pessoas estão sendo acusadas por uma coisa que não aconteceu? Mas em nome de que? De quem? De que interesses? Ainda é possível imaginar que a polícia possa cometer atos bárbaros de tortura contra cidadãs íntegras, de classe média alta, sobrenome importante, para arrancar uma confissão falsa? Sob que pretexto? O que afinal aconteceu com essa criança no dia 6 de abril de 1992?


Nós nunca vamos saber a verdade. A terrível verdade, tão terrível quanto a dúvida. Nunca. Essa verdade não existe mais. 19 anos e 70 mil páginas de processo depois, não há mais uma verdade possível. O que teremos, talvez, será uma invenção da realidade, um simulacro mal acabado, perturbado por dezenas de dúvidas, perguntas e acusações. Guaratuba jamais saberá se seu menino virou anjo ou se o que aconteceu naquele distante 6 de abril foi obra de bruxas ou de monstros. Assim como nós, vai permanecer até o fim com suas dúvidas e seus fantasmas. Assim como ela, nós nunca saberemos. Nunca. Nunca.

5 comentários:

Anônimo disse...

"Celina não vai a julgamento porque a lei brasileira prevê que o prazo prescrional máximo é de 20 anos e, quando o réu faz 70 anos, este prazo conta pela metade. Por isso, passados mais de dez anos entre a decisão de pronúncia e novo julgamento, a punibilidade dela foi extinta."

Fonte: http://www.mp.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=1649&tit=27052011-CASO-EVANDRO-Tribunal-do-Juri-julga-hoje-principal-acusada-pela-morte-do-menino

Mari Biddle disse...

A unica certeza que a gente tem e' que a policia fez seu deservico torturando para arrancar uma confissao. Sempre a policiazinha mal paga, porca, arrogante, burra e violenta fazendo a unica coisa que foi aprendida nos tempos da Ditadura - torturar.

E Policia Cientifica entao...poderia ter ajudado, mas a gente nem sabe se ela existe.

Que pena.

Rose Foncée disse...

Mari, eu não tenho essa certeza. Nem essa.

Rose Foncée disse...

Anônimo, escrevi o post para expressar uma reflexão minha sobre os conceitos de verdade, dúvida, passagem do tempo, etc... para isso, usei o caso como exemplo, e descrevi brevemente seus principais fatos. Com isso algumas imprecisões foram cometidas, pelas quais me desculpo. Essa que você apontou não foi a única. Imagino que os leitores que se interessam pelos aspectos jurídicos do caso irão procurar informações em fontes mais voltadas para esses aspectos. Além disso, termos como "prazo prescricional", "pronúncia" e "extinção de punibilidade" fariam o post ficar pareceido com um texto técnico ou jornalístico, o que não é o caso mesmo. De qualquer forma, obrigadíssima, viu, querido. Tenho certeza que muitos leitores estão felizes por saber um pouquinho mais sobre o palpitante mundo do processo penal brasileiro. Beijos!

Saulo disse...

Rose,

Você fez um favor muito grande em não se ater aos aspectos puramente técnicos do caso. Essa reflexão, sem o juridiquês, deixou o texto mais acessível para a maioria, que não é bacharel em direito. Se você usasse essa linguagem chata, o texto ficaria pedante.

Quem quiser saber detalhes sobre as questões jurídicas, pode procurar o anônimo, que já demonstrou ter algum conhecimento do assunto.