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sexta-feira, fevereiro 3

Mas tão certo quanto o erro de ser barco a motor, e insistir em usar os remos...



E ao contrário do restante do país, a temperatura na capital do Brasil está em torno de fantásticos 20 graus... agora à tarde, depois de uma manhã nublada, o sol fraquinho apareceu e brilha em um céu que dá, eternamente, a impressão de estar muitos andares abaixo do que em outros lugares, como se fosse possível pega-lo com a mão.

Coincidentemente, ontem à noite fiquei conversando sobre música brasileira, e hoje acordei e estou o dia inteiro com Daniel na Cova dos Leoões - a obra-prima linda e dolorida do Renato Russo - na cabeça. Poucas músicas definem tanto uma geração e poucas cidades evocam tanto uma época musical como essa...

assim, que o teu cheiro forte e lento
fez casa nos meus braços e ainda leve
e forte e cego e tenso fez saber
que ainda era muito e muito pouco


Sim, hoje eu estou apaixonada. Por Brasília.

quarta-feira, junho 22

Esse imenso, desmedido amor, vai além de seja o que for. Vai além de onde eu vou, do que sou, minha linha do equador...



São incomparáveis as manhãs de junho dessa cidade. O céu, sem nenhuma nuvem, de um azul indescritível. A temperatura deliciosa em torno dos 20 graus e apenas uma brisa levíssima, revigorante. Árvores, gramados, pássaros, enchendo de espanto os olhos acostumados apenas às esquinas e concretos das cidades comuns. Nenhum muro, nenhuma grade, nenhuma guarita. Silêncio, apesar dos mais de um milhão de veículos que percorrem seus eixos, tesourinhas e superquadras.

Quando percebemos, já não estamos mais pensando nos problemas, remoendo as amarguras ou planejando o futuro. É o agora que se apresenta pleno sob o sol do cerrado, e a sensação é de que nada pode dar errado em um dia como hoje. A vida está acontecendo exatamente neste momento, e é muito, muito boa.


Bom dia, Brasília.

quinta-feira, fevereiro 10

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho. Nada do que não era antes quando não somos mutantes.




A pé? Sim, porque não? A noite não está tão quente, ainda é cedo, e - é claro – sempre é possível pegar um táxi na volta. Devagar, pelas altitudes da Bela Vista, ao virar a esquerda, a Rua Barata Ribeiro é tão íngreme, mas tão íngreme, que a descida parece vertiginosa. Fôssemos ainda crianças, e acho que aquela vontade de abrir os braços e descer correndo, desembestados, seria irresistível. Lá embaixo, o encontro com a 9 de Julho, bem na Praça 14 Bis. Não parece o lugar onde pessoas comuns transitam durante a noite. Grades, gente de olhos inexpressivos, aparentemente drogados, passagens sob viadutos, vias de alta velocidade, sirenes... depois de um, dois, três semáforos, uma rua estreita e vazia e a mágica tipicamente paulistana: a três passos dos monstros de concreto e dos corredores de tráfego de 30 pistas, a calma quase interiorana de quarteirões com sobrados, cachorros, bicicletas e vizinhos. Um pouco mais à frente, à esquerda, a Rua Santo Antonio, já com as luzes típicas do Bixiga, as cantinas abertas, pessoas na calçada, muitos carros circulando. A 13 de Maio começa ali, tão quietinha naquelas baixadas que é inacreditável pensar que algumas quadras acima já estará feérica, engarrafada, boêmia, com seus teatros, botequins e bêbados, enquanto continua subindo, até ficar elegante e cosmopolita, no encontro com a Paulista, no Paraíso, que dali, da calma da Rua Santo Antonio, parece tão distante quanto uma outra galáxia.


Entramos na cantina que parecia ser a mais antiguinha. Numa curva da rua, quase antes de outro viaduto, do lado de uma oficina, onde novamente o bairro parecia mergulhar no silêncio e na escuridão. Não havia tabuleta com nome sobre a porta fechada e apenas a luz visível pelo vidro das janelas denunciava que o lugar estava aberto. E que lugar! Mais acolhedor impossível. Toalha xadrez, garçom idoso, pratos fartíssimos, vinho delicioso, uma mesa com uma enorme família, outra com um casal provavelmente clandestino, uma terceira com um grande grupo de amigos, ruidosos e felizes. Duas garrafas depois (porque não?), e já de madrugada, o céu laranja das luzes refletidas nas nuvens e a leve euforia dos levemente embriagados nos fez dispensar o táxi (aquele, que era possível tomar a qualquer tempo, na volta) e retornar caminhando pelas ruas agora mais vazias, por sob os viadutos assustadores, ladeira acima, com a estranha sensação de que deveríamos estar com medo, mas não estávamos...


Uma senhorinha desgrenhada passeia com um cachorro de raça, melhor penteado que ela. Uma dama (calça de couro preta, top de lamê vermelho, saltos altíssimos, maquiagem carregada, cabelo tingido e alisado), gesticula muito, aflita, ao celular. Uma ratazana enorme cruza a rua poucos metros à frente, e se esconde em um bueiro. Uma jovem mãezinha de jeito muito doce, caminha apressada pro ponto de ônibus puxando uma linda menininha pelas mãos – nos cumprimenta quando passamos por ela. Três rapazes de calças enormes e bonés pra trás passam gingando e conversando alto – a atitude desafiadora mal disfarçando olhos, no fundo, inseguros e amedrontados. Perto do Sírio-Libanês, uma ambulância, uma senhora muito elegante, aflita, passa quase correndo. Em frente a um bar gay, muita gente, rapazes lindos, todos sorrindo, com dentes perfeitos. Um bêbado louco, proferindo impropérios, aos berros, em plena Peixoto Gomide.


Quase 30 minutos de caminhada vagarosa e chegamos cansados, quase ofegantes. O que teríamos feito com aqueles 30 minutos? Praticado catatonia diante da TV, talvez. Arrumado algum pretexto bobo, um objeto fora de um lugar, uma palavra inconseqüente dita na hora errada, pra começar uma discussão. Revirado na cama reclamando de insônia, de angústia, de calor. Mas não; estamos aqui, diante da janela escancarada. Deixando que o ventinho muito fresco, como sempre são os ventos no 20º andar, nos refresque e faça voltar ao normal os batimentos cardíacos, adivinhando o sexo que certamente virá em seguida, olhando a cidade enorme, iluminada, linda, linda, lá embaixo, debaixo do céu laranja que certamente amanhecerá cinza chumbo.


Bruna Lombardi disse uma vez que é preciso ser completamente apaixonada por uma cidade para enxergá-la assim. Creio que não. Creio que basta que tiremos dos olhos os filtros conformistas da classe média. E caminhemos por calçadas onde não pisam os burgueses. E atravessemos ruas acostumadas apenas a pneus velozes e eventuais pés maltrapilhos e descalços. Espaços que na verdade são nossos, e que aos poucos fomos entregando, covardes, nos escondendo (do que, meu Deus?) atrás dos nossos portões, dos nossos carros, dos nossos muros, deixando toda emoção, compaixão, indignação e encantamento do lado de fora. Como se fossemos assim tão frágeis e como se precisássemos nos proteger tanto assim da vida de verdade.
Essa noite não. Ali embaixo estão as minhas calçadas, minhas luzes, minha Bela Vista, meu concreto, meus iguais. O portão ficou aberto. Boa noite, São Paulo.